A escassas horas de fazer 37 anos, dei comigo a fazer um balanço da minha vida; tentei ao máximo fugir dele, por ter perfeita noção de que o resultado é bem mais do que negativo, no meu entender.
Não deveria ser; afinal, não tenho nem nunca tive medo de envelhecer, sempre tive muito respeito e admiração pelos mais velhos; tenho dois filhos maravilhosos, a minha própria casa, não falta comida na mesa (com alguma ginástica, mas não falta), andamos todos vestidos e calçados e estou prestes a completar 20 anos de relacionamento com o maridito - 7 de namoro e 13 de casamento.
Para muitas pessoas, o parágrafo anterior seria mais do que suficiente para se sentirem felizes (se bem que a felicidade é um conceito complexo, errático e normalmente difícil de atingir), realizadas e tranquilas na vida; e eu acho que para mim também deveria ser, mas não é.
E porquê?
Porque, desde miúda, sempre tive apenas um objectivo - ser financeiramente independente; nunca quis ser rica, nem ter empregados, nem ganhar totolotos ou euromilhões; queria, apenas e só, ter o dinheiro suficiente para pagar as minhas despesas sem depender de ninguém. E esse objectivo continua (e muito provavelmente continuará) por atingir.
Como já contei aqui no blog, a minha mãe faleceu quando eu tinha 12 anos; o meu pai não quis ficar comigo, pelo que foi a minha avó materna quem me criou, com muito custo. Embora houvesse um documento do tribunal que obrigava o meu pai a pagar os meus estudos e a dar uma determinada quantia por mês à minha avó para a minha alimentação e vestuário, esse valor era mínimo; tão mínimo, que a minha avó, como é óbvio, alimentava-me, vestia-me, calçava-me e, coitadinha, até me comprava umas prendinhas de vez em quando (que eu recebia, sempre de coração apertadinho, por saber que esse dinheiro lhe ía fazer falta a ela).
Quanto ao meu pai, raramente me telefonava; era sempre eu que lhe ligava para saber como ele estava e, invariavelmente, do outro lado da linha, ouvia: "Quê? queres mais dinheiro???"; com o passar do tempo, acabei por só lhe ligar mesmo quando precisava de dinheiro para material escolar (e mesmo assim evitava...)
Sempre fui boa aluna, com médias de 5 até ao 9º ano e de 16 ou 17 valores no secundário; nunca chumbei nenhum ano na faculdade, poucas cadeiras deixei para 2ª época e as que deixei foram sempre pensadas, de forma a garantir as melhores notas possíveis; aliás, poucos exames fiz, dispensei quase sempre através das frequências. Mas para o meu pai nunca chegou; as minhas notas eram sempre baixas; nunca me pagou os exames de 2ª época, apesar de eu sempre lhe ter explicado que os deixava para essa fase para poder melhorar notas. Acabei o meu curso em 5 anos, com uma média de 16 valores (não foram 17 por 1 décima, graças ao estupor do meu orientador de monografia, que resolveu embirrar comigo, não me orientar em nada e ainda dar-me nota mínima na apresentação da dita cuja). No dia em que acabei o meu curso, e de casamento marcado para daí a um mês e meio, o meu pai disse: "toma lá 500 contos. A torneira fechou."
Nesse dia caiu-me tudo ao chão; não que eu estivesse a pensar em pedir dinheiro ao meu pai ou viver às custas dele; se não o tinha feito até aí, não ía começar nessa altura de certeza. Mas essa frase, juntamente com todos os anos anteriores, condicionaram a minha vida. Enquanto os meus colegas, com notas de fim de curso bem mais baixas que a minha, foram fazer pós-graduações, mestrados, doutoramentos e afins, eu tive que ir trabalhar numa área completamente diferente da minha, e que detestava. Mas fui. E a reacção do meu pai foi: "pois, eu não te disse que o teu curso não prestava??? agora aguenta-te". Ele, que se relacionava (e relaciona) diariamente com dezenas, senão centenas de médicos, directores de hospitais, de clínicas, etc; ele, que não lhe tinha custado nada falar com um deles e arranjar-me colocação; e atenção, que não estou a falar de cunhas - com as minhas notas, os voluntariados que fiz durante a faculdade, o estágio (onde tive 19 valores, e só não tive 20 porque me "baldei" no relatório de estágio e o fiz às 3 pancadas) e uma série de formações feitas ao longo do curso, pagas do meu bolso, estava mais que qualificada para começar a trabalhar a nível da clínica privada (ou, muito sinceramente, em qualquer outra área da psicologia); bastava que alguém me desse a oportunidade para tal.
Mas não; ele não o fez; eu não lhe pedi; fui trabalhar, casei, não tive lua de mel (ainda hoje estou à espera de a ter, mas enfim), tive a minha filha, juntei dinheiro, fiz mais duas pós-graduações, uma de 1 ano e outra de dois, ambas profissionalizantes e arrisquei sozinha. Comecei a dar consultas e formação, investi num espaço próprio, cheguei a trabalhar 20h por dia, 7 dias por semana, ao mesmo tempo que lutava para educar a minha filha com todo o amor possível, manter a minha casa limpa e organizada, comida na mesa e ainda conseguir encaixar um tempinho para o maridito...
O meu pai?? Esse sempre disse que eu sou calona, que nunca trabalhei, que não sei trabalhar em equipa, que não tenho iniciativa e por aí fora.
Quando as coisas estabilizaram um pouco, resolvi ter o segundo filho; e tive; mas com ele vieram alguns problemas na gravidez, que me obrigaram a interromper a actividade profissional mais cedo que o esperado; e depois veio o problema das pernitas dele, com idas 3 vezes por semana para a fisioterapia no hospital e o respectivo acompanhamento permanente em casa, que condicionaram o meu tempo útil de trabalho; e depois veio a crise. E sem saber muito bem como, tudo aquilo por que eu tanto lutei para construir e assim concretizar o meu objectivo de ser financeiramente independentemente ruiu por completo.
E agora estou assim... Sem trabalho, sem capacidade de iniciativa, sem capacidade financeira para fazer seja o que for, sem forças para continuar a lutar, sem conseguir pensar sequer em recomeçar tudo do zero, na minha área ou noutra qualquer.
Sim, tenho os meus filhos, a minha casa, o meu marido, comida na mesa e roupa no corpo; segundo Mazlow, as minhas necessidades fisiológicas estão supridas; as necessidades de 2º nível, que dizem respeito à segurança nas mais diversas áreas, também estão satisfeitas, se bem que algumas delas a um núvel algo precário, nomeadamente as que respeitam aos recursos financeiros; chegamos então ao 3º nível; e aí é que a porca torce o rabo; quanto à família, Mazlow refere-se à família próxima mas também á família alargada; e aí, nada feito; relativamente à amizade, nem pensar... já nem com a minha melhor amiga falo porque pura e simplesmente não tenho assunto de conversa; e no campo da sexualidade,,, enfim, vai-se tentanto, mas sem vontade nenhuma. E daí para a frente, é sempre a descer colina abaixo.
É frustrante. É muito frustrante. É demasiado frustrante. Amanhã faço 37 anos. E dependo do meu marido para tudo; até para por gasolina no carro e ir a algum lado tomar um café; caramba, até para esse café eu dependo dele. Ainda estou pior do que aos 12 anos. E não sei como resolver esta situação. Não tenho forças para mais. E ainda tremo de medo, só de pensar que o meu pai pode descobrir a situação em que eu estou. Sim, por incrível que pareça, aos 37 anos de idade ainda tenho medo que me pelo do meu pai; aquele homem ainda me consegue levar a um choro compulsivo só de pensar nas palavras que podem sair da boca dele; porque magoam; magoam muito; porque me atiram ao chão; para dentro do mais pequenino buraco que eu conseguir encontrar. Porque ele é pai, mas age como carrasco. E eu gostava tanto de ter um pai, por um dois dias que fossem...
Pronto, fim das lamúrias.
Amanhã é outro dia. O maridito vai estar a trabalhar, mas eu espero acordar com coragem para, pelo menos, fazer um bolinho para lanchar com os filhotes; e se não der, paciência, será um dia igual a todos os outros.
Bjinhos!!